O Que São Redes Fantasma e Por Que São um Problema?
As redes perdidas em alto mar, seja por mau tempo, ruturas estruturais ou abandono involuntário, continuam ativas, capturando espécies de forma descontrolada. Este fenómeno, conhecido como pesca fantasma, provoca danos que vão muito além do que se vê à superfície:
- Capturas involuntárias que ninguém contabiliza nem gere;
- Pressão adicional sobre espécies já ameaçadas;
- Destruição silenciosa de habitats marinhos sensíveis;
- Riscos reais para a navegação e segurança marítima;
- Prejuízos operacionais para embarcações que perdem material essencial.
Como são produzidas com fibras sintéticas resistentes, estas redes podem permanecer no oceano durante anos, mantendo grande parte da sua integridade estrutural. É daqui que surge a urgência de adotar soluções sustentáveis que previnam não só a perda de redes e equipamentos, mas também a forma como são descartados.
Como São Produzidas as Redes de Pesca Industriais?
As redes utilizadas em operações industriais recorrem a fibras sintéticas concebidas para resistir a condições marítimas exigentes. Compreender estes materiais ajuda a perceber por que razão o descarte adequado é tão crítico.
Poliamida (PA)
Também conhecida como nylon, a poliamida destaca-se pela sua elevada resistência à tração e excelente elasticidade. Características que a tornam a escolha preferida para operações em águas profundas onde a tensão é constante.
Este material aguenta puxões intensos sem ceder e possui boa capacidade de absorção de água, o que aumenta a velocidade de afundamento das redes, uma vantagem importante em artes como redes de cerco.
No entanto, a poliamida tem menor resistência aos raios UV do que outros materiais, o que exige tratamentos estabilizadores para prolongar a sua vida útil quando exposta ao sol.
Polietileno (PE)
Leve, robusto e flutuante, é ideal para redes de superfície. Este material é resistente à abrasão e ao contacto com fundos marinhos rochosos. É muito popular em redes de arrasto para pesca costeira e em redes para aquacultura em lagos e rios, onde o ambiente não é muito agressivo.
O polietileno tratado com estabilizadores UV apresenta alta resistência à exposição solar, tornando-o uma opção económica e versátil para diferentes tipos de pesca.
Polipropileno (PP)
Oferece boa resistência à exposição prolongada à água salgada, ácidos e álcalis presentes no ecossistema marinho. Este material é conhecido por ser leve e possuir uma flutuabilidade natural, sendo muito usado em aplicações semelhantes ao polietileno, como redes de arrasto para pesca costeira e offshore, bem como em aquacultura.
Poliéster (PES)
Com excelente capacidade de carga e resistência dimensional, o poliéster mantém-se firme mesmo sob pressão intensa, sendo o material indicado quando não se pode arriscar falhas estruturais. Uma das suas maiores vantagens é a baixa absorção de água, o que significa que as redes mantêm o seu peso e a sua forma mesmo quando molhadas.
A sua resistência superior e suavidade faz com que seja uma eleição fácil para redes comerciais de grande escala, partes de redes de arrasto onde se exige maior robustez, e no revestimento interior (cod-end) onde é necessário proteger o peixe de danos.
Estas características tornam as redes eficazes durante as operações. O problema? Essa mesma durabilidade significa que, quando perdidas ou descartadas de forma irresponsável, permanecem no oceano durante décadas.
Como Descartar Redes de Pesca de Forma Sustentável?
A forma como uma frota organiza e descarta o seu material de pesca em terra é determinante para reduzir a poluição marinha. Não é complicado, mas exige método. Seguir estas quatro práticas essenciais pode fazer a diferença entre proteger o oceano ou contribuir para o problema.
1. Separe os Materiais por Tipo e Estado
Antes de encaminhar as redes para reciclagem ou recolha especializada, a triagem é fundamental. Pode parecer um passo extra, mas é aqui que se define o impacto de todo o processo.
- Separe as fibras por tipo;
- Remova a sujidade, lamas e organismos incrustados para evitar a contaminação do lote;
- Identifique segmentos danificados.
Esta triagem inicial melhora a qualidade do material enviado para processamento e evita contaminações que podem inviabilizar a reciclagem.
2. Armazene em Terra de Forma Segura
O armazenamento inadequado pode provocar a libertação de microplásticos ou permitir que o vento e a chuva arrastem as redes de volta ao mar.
As soluções de armazenamento são:
- Contentores fechados;
- Sacos industriais resistentes;
- Zonas delimitadas e identificadas dentro do cais ou do armazém.
Uma boa gestão do armazenamento em terra reduz imprevistos, facilita o trabalho da tripulação e garante que o material chega onde deve chegar, nas condições certas.
3. Utilize Pontos Oficiais de Recolha
Portos, cooperativas e entidades ligadas à gestão de resíduos disponibilizam, cada vez mais, pontos dedicados à receção de artes de pesca em fim de vida. Os pontos de recolha variam consoante o tipo de material e o seu estado. Se tem redes danificadas ou equipamento em fim de vida, há duas vias principais:
- Redes e artes de pesca: A Ambibérica é uma das entidades que recolhe estes materiais para processamento e reciclagem. Pode contactá-los diretamente para saber os pontos de entrega mais próximos da sua zona de operação.
- Equipamentos que exigem licenciamento: Se trabalha com artes de pesca profissionais que necessitam de documentação específica, a Direção-Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos (DGRM) é a entidade que regula e orienta estes processos.
Nestes pontos, os materiais são registados, triados, pesados e encaminhados para reciclagem ou reaproveitamento. Esta etapa garante tratamento adequado e elimina o risco de abandono acidental.
Dica: procure saber junto da capitania do porto ou da cooperativa local quais são os pontos disponíveis na sua região.
4. Recicle e Integre na Economia Circular Azul
As redes recolhidas podem seguir diferentes caminhos de valorização, cada um com o seu papel na economia circular.
- A reciclagem mecânica transforma-as em pellets que servem de matéria-prima para novos produtos, desde componentes industriais a mobiliário urbano.
- O reprocessamento permite criar novas cordas, fibras ou materiais compósitos que voltam ao setor.
- Por fim, o upcycling vai mais longe ao criar produtos de maior valor integrados noutros setores, como moda.
Este ciclo reduz a necessidade de produzir novos plásticos e prolonga a vida útil dos materiais já existentes.
Prevenção: Reduzir o Risco de Perda e Descarte
Mais do que descartar corretamente, é fundamental evitar os resíduos. Aqui entram tecnologias que eliminam a necessidade de acessórios descartáveis e reduzem a perda de equipamento em alto mar.
Um bom exemplo é o FishFiberLight, um fio de pesca luminescente desenvolvido pela Cadilhe & Santos em parceria com o CeNTI.
O modo de funcionamento é simples! Este monofilamento emite brilho próprio, dispensando completamente as luzes químicas descartáveis ou sistemas LED com baterias que a pesca tradicional usa. Estas lâmpadas convencionais avariam, perdem-se no mar ou são simplesmente descartadas após cada operação, acumulando-se como resíduos marinhos.
As vantagens são claras:
- É 100% reciclável e mais ecológico do que as alternativas convencionais;
- Emite luz sem recurso a baterias ou lâmpadas químicas que acabam no oceano;
- Mantém visibilidade mesmo em águas profundas, garantindo eficácia operacional;
- Reduz a dependência de dispositivos luminosos descartáveis;
- É totalmente recuperado após cada operação.
Ao dispensar luzes químicas e equipamentos propensos a serem perdidos no mar, esta solução diminui significativamente a quantidade de resíduos gerados pela pesca industrial antes mesmo de chegarem ao oceano.
Redes Biodegradáveis: Um Passo Decisivo para o Futuro
A Cadilhe & Santos tem também investido no desenvolvimento de redes de pesca biodegradáveis, capazes de reduzir de forma significativa o impacto caso se percam no mar.
As redes Bio Net representam um avanço concreto na pesca sustentável. Concebidas com materiais biodegradáveis certificados, estas redes reduzem o risco ambiental associado às redes fantasma. Isto acontece porque uma das suas características é que se degradam naturalmente, sem deixar microplásticos persistentes.
Desta forma, estas redes contribuem para a proteção de ecossistemas sensíveis, dando às frotas uma opção concreta para reduzir o seu impacto.
A sustentabilidade na pesca industrial exige ação em três frentes: operação consciente, manutenção adequada das artes e descarte responsável. Não é suficiente focar-se apenas numa delas.
Com processos de triagem adequados, armazenamento seguro, entrega em pontos oficiais e tecnologias preventivas como FishFiberLight e Bio Net, as frotas podem reduzir significativamente o impacto das redes de pesca no oceano.
A Cadilhe & Santos mantém o compromisso de desenvolver materiais mais eficientes, duráveis e amigos do ambiente, contribuindo para operações mais seguras e para a proteção do nosso mar.





